terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os Anos, As Diferenças




   As gotas de chuva molhavam a janela do ônibus, enquanto Bibiana pensava em como seria sua nova vida há quatrocentos quilômetros longe dos pais. Estava viajando para casa dos avós, onde passaria a morar agora que estudaria medicina na capital. Imaginava ela que finalmente poderia fazer o que quisesse, pois seus avós, já na velhice permitiriam tudo, claro.
   Bibiana apesar de muito estudiosa, gostava muito de sair à noite e de fazer festas. Antes mesmo de chegar à cidade, já estava sabendo que teria uma festa com os bixos da faculdade. Faria de tudo para ir.
Seus avós haviam se mudado há pouco tempo, ela ainda não conhecia a casa. Gostou da decoração antiga, os móveis robustos, um lustre muito bonito na sala, tudo de muito bom gosto. Finalmente foi conhecer seu quarto. Era do mesmo estilo da casa, bem diferente do seu, mas ela gostou. No dia seguinte, ao acordar, foi tomar o café da manhã e avisar sua avó de que iria sair.
   - Vó, hoje à noite estou indo a uma festa.
   - Desde que termine antes das dez, tudo bem, minha filha. - respondeu a avó.
   - Como assim? A senhora acha que vai terminar nesse horário? Vó, a festa termina de manhã.
   Ela arregalou os olhos e quase se engasgou com o café.
   - Cuidado vó, a senhora está bem?
   - Querida, isso não é coisa de moça decente. Nem pensar. Eu com sua idade não saía à noite.
   - Vó, hoje é diferente.
   - Você pode ir, mas se for ficarei magoada com você. Ora, onde já se viu? Isso não é coisa de moça decente!
   Bibiana não entendia sua avó. Como uma pessoa poderia ser considerada indecente por ir a uma festa e voltar tarde? Para ela, isso era perfeitamente normal e um hábito seu. Não queria, porém, magoá-la. No entanto, queria muito ir à festa. Sentia-se dividida. Decidiu que conversaria de tarde com ela. Enquanto isso sua vó lembrava de quando Maria, a mãe de Bibiana, tinha a idade dela e de tantas coisas que ela a havia privado por não tentar entendê-la. Como ir a festas e namorar, nunca achava que a filha tinha idade o suficiente até que um dia percebeu que ela já tinha crescido. "Será que agora não estava fazendo o mesmo com a neta?", pensava. Já de tarde:
   - Vó...
   - Fale.
   - Não há nada de indecente em ir a uma festa e voltar tarde. Não fique magoada comigo se eu for. Só irei dançar e conversar com amigos.
   - É difícil para eu entender, filha. Mas a verdade é que muito mudou da minha época para a sua. Assim, como tive que compreender as diferenças quando sua mãe tinha a sua idade, vou tentar entender você agora. Pode ir, não ficarei magoada.
   - Obrigada, vó.
   Sua avó tricotava enquanto dizia isso e Bibiana percebeu que sua geração era bem diferente da de sua avó e imaginou que um dia ela seria uma velhinha tricotando também, mas não como sua avó. Tricotaria através de um jogo de videogame.

Letícia Rocha

Minhas Lágrimas - Letícia Rocha

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Beleza e Paz

Se eu pudesse, eu iria para
a beira de um rio.
Sentaria à sombra de
uma árvore e ficaria
a contemplar a vida.

Ouviria o som dos
pássaros, que me traria
inspiração para uma nova melodia.
Sentiria o calor do sol e
admiraria a beleza de sua luz.

Tomaria água de coco à vontade
e me sentiria feliz de verdade.
Feliz por estar em paz apesar
dos obstáculos, feliz por
poder superá-los com
tranqüilidade.

Confiando em Deus e
agradecida a Ele por
tudo que Ele tem proporcionado e
admirando Sua imensa criação.

                                                                      Letícia Rocha

sábado, 11 de dezembro de 2010

Uma Busca, Uma Descoberta







                              
 
 
    Sozinha a caminhar, vou pensando. Ninguém ao meu redor. Lá adiante, vejo um rio, cujas águas deslizam suavemente sobre as pedras. Estou dentro de mim. Não ouço nenhum som além do som das águas. Tudo está em paz.
   Não tenho certeza de para onde estou indo. Há muitos labirintos, há árvores, tudo está iluminado pelo sol, com exceção das sombras que as árvores causam. Sento em uma pedra e começo a escrever na terra. Estou em busca do meu coração. “Onde estará?”, eu escrevo.
   Adormeço e acordo ao anoitecer. De repente o rio que eu via, já não é mais um rio, é um mar. Tudo está escuro, há apenas a luz do luar. Os sons que eu ouço são dos grilos e das ondas, que de uma forma assustadora, estão violentas. Por isso, sigo a direção contrária a do mar. “ E meu coração, onde estará?”, preciso encontrá-lo, somente assim, serei completa.
   Não canso de procurar. Enquanto caminho, percebo que quanto mais me distancio, mais a temperatura cai, de tal maneira que sou obrigada a recuar, pois não há como suportar. De súbito, interpreto essa queda como um sinal de que estou na direção errada. Talvez o caminho para o meu coração seja na direção do mar, portanto me dirijo para lá. Mas como atravessarei as ondas? Eu choro, pois não há nada que eu possa fazer, não há barco que atravesse, o dia não amanhece.
   Se eu enfrentar o mar, morrerei; se eu não for completa, não viverei. Então, sem esperanças, mais uma vez, eu olho para as ondas. E sem entender, vejo alguém, que surgiu em pé sobre as águas. Uma voz me diz: “ Não temas, apenas venha até mim”. Eu obedeço com um certo medo e ando sobre as águas. O medo vai embora, continuo olhando para ele. Quando o alcanço, o dia amanhece. Ele me abraça e voltamos para a terra, já do outro lado do mar.      Eu pergunto:
-         Quem é você?
Ele responde com outra pergunta:
-         O que buscas?
-         Meu coração.
-         Por quê?
-         Estou vazia- digo eu tristemente.
-         Afaste essas pedras- ele disse apontando para as pedras que estavam ao nosso lado. E eu encontro meu coração, tudo que eu queria.
-         Como posso agradecer-te?- eu pergunto quase sem acreditar no que havia encontrado.
-         Tudo que quero é o teu coração.
Eu choro.
-         Por que choras?
-         Se eu perdê-lo, jamais serei completa- Mas então, sou invadida por uma doce sensação, que me dizia para entregar meu coração. Foi o que fiz.
-         Serás completa para sempre- ele sorri e desaparece.
Fiquei muito tempo parada pensando no que aconteceu. Uma onda de alegria invadiu meu ser a partir daquele momento. Descobri que ele era Deus.

Letícia Rocha